Uma perda nunca é fácil

Foto: Todos choramos.

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça[…] A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

( Fabrício Capinejar)

Vivo desde domingo uma história que meu pensamento insiste em não acreditar. Totalmente atordoada pela notícia da tragédia na boate Kiss, só tive coragem de sair de casa hoje. Estou de LUTO!!

No domingo fui acordada com a minha irmã dizendo que havia tido um incêndio na boate Kiss que pessoas haviam morrido. Não consegui ouvir o número de perdas pois estava muito sonolenta para isso.
Minutos depois me veio um sentimento de pânico total. Lembrei que meus colegas da faculdade (Comunicação Social – UFSM) iam fazer uma festa lá, mas não lembrava o dia. Fiquei apavorada comecei a procurar pelos nomes na internet. Vi se algum estava online, a maioria não, para o meu desespero.
Comecei a ler as notícias nas redes socias. Ouvia o Esporte Espetacular falando do acontecido – comecei acreditar que as proporções eram gigantescas a partir deste momento.- Pedimos um rádio emprestado para ouvir mais alguma coisa.
Fomos ao hospital mais próximo oferecer ajuda, já que minha irmã é enfermeira. E vi que toda a cidade estava solidária às vítimas e familiares. Todos estavam preocupados e ajudando.
A cidade parou em várias partes, onde o movimento ,em dias normais, era frenético. A concentração de pessoas estava perto da boate e do Ginásio Municipal.
Horas depois começamos a ouvir nomes de pessoas que estavam lá. Meus colegas não estavam pois sua festa foi na sexta. Mas a dor veio do mesmo jeito. Tinha amigos lá dentro. Cada nome conhecido que ouvia era mais um aperto no coração.Entre amigos, perdi 3.
Depois quando saiu as fotos percebi que não eram somente 3 pessoas que perdi. Vi rostos conhecidos e comecei a lembrar da ocasião que vi aqueles rostos tão familiares.
Alguns do colégio, de uma ou outra turma. Lembrei de seus rostos que vi no meio dos corredores, ou formaturas, recreios, brincadeiras.Outra de uma formatura que eu fui convidada, no final do ano passado. E ela foi a oradora de sua turma. Todos a admiravam. Uma menina linda, sonhadora…
Sabe aquela história de cidade pequena?! Havia uma jovem de uma cidade assim. Que era sobrinha de um amigo da minha mãe. Não éramos conhecidas, mas já ouvimos falar dela.
Outro, de um evento que fui para representar a Associação da qual faço parte. Ele era monitor da turma de um projeto de incentivo aos jovens, sobre markenting. Ele era adorado por seus alunos. Morreu como herói salvando 14 pessoas.
Histórias como a dele se repetiram por toda a semana. Meninos que já haviam saído da boate voltaram para salvar outras vidas, mas não sobreviveram. Morreram como heróis.
É estranho saber que de repente aconteceu um incêndio e essa pessoa não sobreviveu. É triste.
O curso de Agronomia, o mais festeiro, perdeu a maior parte de seus alunos.
A cidade foi devastada.
Na hora de confortar as famílias não há palavras. Só pude dar meus carinho. Me senti impotente. Quem não se sentiu?

Todos procuram culpados. Muitos foram insensíveis. Como alguém pôde dizer ” Ainda bem que eu não frequento estes lugares!” ??? Poderia ter acontecido em QUALQUER LUGAR. Inclusive igrejas.
Outras querem se promover com a situação, usando essa situação. Postam fotos irreais, e ainda desrespeitam os enlutados. Outros usam o sensacionalismo para comover as pessoas, dizendo o que “viram”. Tomem cuidado com isso.
No momento de dor, em vez de confortar muitas pessoas julgaram, deram lição de moral.

Mas graças a Deus que MUITAS pessoas ajudaram. O povo gaúcho é solidário. É unido.

Mas sabe o que me dá um orgulho enorme em ser gaúcho nesta hora? É que NENHUMA pessoa, taxista, garçom, colegas de trabalho, disse “bom dia” rindo e quando, involuntariamente saía um “tudo bem?”, a resposta foi: sim, apesar de tudo.
Bancos de sangue lotados. Empresas disponibilizando ônibus, remédios, comida. Voluntários, muitos voluntários há muitas horas sem dormir. Pessoas avisando insistentemente para não irmos aos locais de pouso improvisados para que os feridos chegassem de helicóptero. Eventos como o Planeta Atlântida, para 120 mil pessoas sendo cancelados.
Mc Donalds e outras tantas empresas mandando milhares de lanches para os nossos heróis voluntários…
Não somos os melhores do mundo. Não somos os melhores do Brasil. Não somos merda nenhuma nesta guerra de regiões. Não somos nada além de seres humanos. Mas somos GAÚCHOS e isso ninguém nunca saberá explicar.
Chorei o que deu. Agora é seguir a vida e que nossa tragédia traga mais segurança para todo o Brasil.
Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra.”
(Adriano Barbosa)
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